Alfredo Bessow

Alfredo Bessow é um jornalista, radialista, influenciador e analista político brasileiro com mais de 40 anos de experiência.

Estereotipar o divergente continua sendo a opção preferencial de quem detém a hegemonia

por | 04/07/2019 | 0 Comentários

O surgimento do movimento nacional dos Docentes Pela Liberdade reitera a percepção de que, para o pensamento hegemônico, o eco de outras vozes precisa ser silenciado

Durante os últimos anos, a categoria dos professores – em todos
os níveis de aprendizagem, educação e formação – vendeu-se a si mesmo como um
segmento monolítico, com pensamento convergente guiado por uma mesma
centralidade ideológica. Era como se nesse campo profissional nem houvesse a “necessidade”
de que o círculo de opressão e de patrulhamento da chamada espiral do silêncio
fosse utilizado.

Acontece que o bloco monolítico começa a revelar suas fissuras
– e não mais dentro de uma mesma linha de raciocínio, dentro de um mesmo modo
de reduzir a realidade aos mantras definidos e aceitos como normais. E ao
contrário do caminho que deveria ser natural em tais situações, percebeu-se a
opção pelo caminho mais simples, pela via mais fácil de estereotipar. Ao
conceituar, rotular e tratar como “fascistas” os que ousavam de modo individual
em um primeiro momento e agora de modo coletivo e com abrangência nacional, os
que determinam a amplitude e os limites do status quo recorrem a velha fórmula
que une de modo leviano chavões e conceitos, sem refletir sobre o conteúdo dos
primeiros e sem debruçar-se sobre a razão e o sentido dos segundos.

É dentro desse conceito de que o divergente precisa sim ter
seu espaço que o movimento Docentes Pela Liberdade – lançado nacionalmente na
noite de terça-feira, 3, na Universidade Estadual de Londrina (PR) e que terá
eventos, reuniões e debates em mais de uma dezena de estados durante esta
quinta, 5 – surge.

Claro que esse grupo tem sido fustigado e reiteradamente estereotipado,
porque o simplismo é inerente a quem se pensa dono de uma área e, de repente,
se dá conta de que aquilo que era facilmente exposto à execração é bem mais
relevante e representativo do que o discurso hegemônico optou por utilizar para
referir-se a quem não pensava segundo a cartilha e seus dogmas.

Mas o que querem aqueles que participam do DPL-Docentes Pela
Liberdade?

Segundo a página do movimento: “Somos um grupo de mais de 300 docentes pertencentes a 24 estados do Brasil unidos pela defesa da liberdade com responsabilidade e em oposição ao patrulhamento ideológico nas instituições de ensino. Prezamos pela qualidade acadêmica, liberdade, eficiência administrativa, respeito ao dinheiro público, sustentabilidade, justiça e igualdade de todos perante a Lei e pela verdade.”

Mas por que raios um grupo que se pauta por valores claros é
retratado pelo simplismo de chavões que ficariam melhor em alguma discussão em
boteco do que no ambiente pedagógico?

Porque essa tem sido a forma histórica preferencial de
enfrentamento: a estereotipação. É dessa forma que se busca evitar o debate e o
respeito pelo divergente. Se alguém acha que não é assim e que as pessoas andam
vendo fantasmas, cabe lembrar que um estudante andando nu no ambiente de uma
universidade é mais tolerado e respeitado em sua individualidade do que alguém
que ouse caminhar nesse mesmo espaço com uma camisa do Bolsonaro, por exemplo.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *